Paciente renal crônico, potássio de 7,1 mEq/L no laboratório, e o ECG parece normal. Dá para ficar tranquilo? Não. A hipercalemia tem uma sequência clássica no traçado, que todo mundo aprende, mas o ECG falha nos dois sentidos: deixa passar boa parte dos casos e, quando mostra alteração, nem toda alteração pesa igual.
A dosagem manda no diagnóstico. O ECG serve para outra pergunta, que é a que importa no plantão: este paciente corre risco nas próximas horas? Para responder, a onda T apiculada vale menos do que parece. QRS largo, frequência abaixo de 50 bpm e ritmo juncional valem muito mais.
A sequência que a diretriz descreve
A Diretriz da SBC de 2022, que usa o termo hiperpotassemia, descreve as alterações em ordem, conforme o potássio sobe:
- Onda T de grande amplitude, simétrica e de base estreita.
- Redução do intervalo QTc.
- Distúrbio de condução intraventricular, com QRS alargado.
- Diminuição da amplitude da onda P até o desaparecimento, com condução sinoventricular.
O ensino tradicional, resumido na introdução do estudo de 2017 citado abaixo, acrescenta os degraus finais: ritmos de escape, o padrão sinusoidal, em que QRS e T se fundem numa onda larga e arredondada, e por fim fibrilação ventricular ou assistolia. A diretriz também lembra que a hiperpotassemia entra no diagnóstico diferencial do supradesnível do ST.

A T da hipercalemia tem um jeito próprio: alta, pontiaguda, com os dois ramos simétricos e a base estreita, como uma tenda. A T normal alta, do jovem ou do atleta, costuma ter a base larga e a subida mais lenta que a descida. Mas a fronteira é borrada: numa série de 90 pacientes com potássio de 6 mEq/L ou mais, a amplitude da T medida acompanhou a impressão de "apiculada", e mesmo assim não foi possível definir um valor de corte para o diagnóstico.
O problema: o ECG normal não afasta
Os números variam bastante de um estudo para outro, mas desde 1991 apontam para o mesmo lado: o ECG é pouco sensível.
- Leitura às cegas. Em 220 pacientes de alto risco num pronto-socorro, 87 com potássio acima de 5,0 mEq/L, dois médicos que não sabiam o potássio tentaram prever a hipercalemia pelo ECG. A sensibilidade foi de 43% e 34%. Com potássio acima de 6,5 mEq/L, subiu só para 62% e 55%.
- Pacientes internados. Num hospital universitário americano, só 14% dos episódios de hipercalemia tinham alteração de ECG compatível.
- Pronto-socorro latino-americano. Em 494 pacientes na Colômbia, com potássio mediano de 6,6 mEq/L, 61,5% tinham alguma alteração. A mais comum foi a T apiculada (36,2%), seguida do QRS largo (16,8%).
A especificidade é melhor, em torno de 85%, mas também não é perfeita: tratar a hipercalemia pelo ECG sozinho erraria em pelo menos 15% dos pacientes, segundo os próprios autores do estudo de 1991.
Por isso, a revisão de 90 casos concluiu que o ECG não deve guiar o tratamento do paciente estável. Quem guia é o cenário clínico com dosagens seriadas.
Na prática
Reconhecer a T apiculada é fácil no livro. No plantão, ela aparece ao lado de T normais altas, de repolarização precoce e de isquemia. Na plataforma de laudos da QRS med, você treina em ECGs reais, mede com compasso e recebe a correção do professor na hora. Experimente 7 dias grátis.
O que pesa: QRS, frequência e ritmo
Se o ECG não diagnostica bem, ele estratifica. Um estudo de 2017 acompanhou 188 pacientes com potássio de 6,5 mEq/L ou mais, com ECG feito até uma hora da dosagem. Nas seis horas seguintes, 28 (15%) tiveram evento grave: bradicardia sintomática, taquicardia ventricular, reanimação ou morte.
Os achados associados ao evento foram outros, não a T:
- Bradicardia abaixo de 50 bpm: risco relativo de 12,3.
- Ritmo juncional: risco relativo de 7,5.
- QRS alargado: risco relativo de 4,7. Nos pacientes com evento e QRS largo, o QRS médio foi de 152 ms.
- Onda T apiculada: risco relativo de 0,77, sem associação significativa. Nenhum paciente com T apiculada isolada teve evento, mas 7 dos 28 com evento tinham T apiculada junto com outro achado. Ausência de associação não prova segurança.
Vale a ressalva: o estudo é retrospectivo, de um único hospital, e 22 dos 28 eventos foram bradicardia sintomática, então parte da associação com a bradicardia no ECG é esperada. Os 28 pacientes com evento tinham pelo menos uma alteração no ECG anterior. Isso não autoriza relaxar diante do traçado normal: nesse estudo, 29% dos pacientes com potássio de 6,5 mEq/L ou mais não tinham nenhuma alteração. Todos os eventos aconteceram antes de o paciente receber cálcio.
Uma revisão de 2018 resume a mesma ideia: a T apiculada, o sinal mais conhecido, raramente é a manifestação da hipercalemia que ameaça a vida.
Exemplo com a conta à vista
Paciente em hemodiálise, potássio de 7,0 mEq/L. Você tem um ECG antigo, de três meses atrás, para comparar.
- QRS antigo: 2 quadradinhos. 2 × 40 ms = 80 ms.
- QRS de agora: 3,5 quadradinhos. 3,5 × 40 ms = 140 ms. Alargou 60 ms.
- Frequência: 7 quadrados grandes entre dois QRS. 300 ÷ 7 ≈ 43 bpm.
- Onda P: não aparece em nenhuma derivação.
No mesmo traçado estão dois achados de risco do estudo de 2017, QRS largo e frequência abaixo de 50 bpm, mais a ausência de P, que pode ser a condução sinoventricular descrita pela SBC ou um escape juncional, o terceiro achado de risco. É o perfil de quem teve evento nas horas seguintes naquela série. Esse paciente tende a ser tratado como emergência; siga o protocolo do seu serviço.
Agora o contrário: mesmo paciente, mesmo potássio, ECG com T apiculada em V2 a V4 e nada mais. O potássio continua de 7,0 mEq/L, e quem decide a conduta é o quadro clínico com as dosagens seriadas. O traçado, sozinho, não diz que ele vai parar nos próximos minutos, e também não diz que não vai.
Checklist: hipercalemia no ECG
Diante de potássio alto, ou da suspeita dele:
- Meça o QRS com compasso e compare com o ECG antigo. Alargou?
- Calcule a frequência. Abaixo de 50 bpm?
- Procure a onda P em DII e V1. Diminuiu, sumiu, ou o ritmo é juncional?
- Olhe a T: alta, simétrica, de base estreita? Registre, mas não use a T, sozinha, nem para tranquilizar nem para graduar a gravidade.
- Pense no diferencial do supra de ST: hipercalemia está na lista da SBC.
- Dose o potássio e repita. ECG normal não afasta, ECG alterado não dispensa.
Dica
Na minha prática, QRS largo com bradicardia em paciente renal, diabético ou em uso de medicações que retêm potássio pede potássio na hora, antes de rotular o traçado como bloqueio de ramo ou ritmo de escape "primário". Se o QRS largo vier com taquicardia, a abordagem é outra: veja Taquicardia de QRS largo: trate como TV até prova em contrário.
Medir QRS com compasso e separar a T normal da T alterada só vira reflexo com muitos traçados. Nos módulos O ECG Normal e Repolarização, Isquemia e Lesão da QRS med, você treina essas medidas, laudo a laudo, em ECGs reais de 12 derivações, com a correção comentada pelo professor. Crie sua conta e laude o primeiro traçado.
Referências
- Samesima N, God EG, Kruse JCL, Leal MG, Pinho C, França FFAC, et al. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;119(4):638-680. doi:10.36660/abc.20220623
- Montague BT, Ouellette JR, Buller GK. Retrospective review of the frequency of ECG changes in hyperkalemia. Clin J Am Soc Nephrol. 2008;3(2):324-330. doi:10.2215/CJN.04611007
- Wrenn KD, Slovis CM, Slovis BS. The ability of physicians to predict hyperkalemia from the ECG. Ann Emerg Med. 1991;20(11):1229-1232. doi:10.1016/s0196-0644(05)81476-3
- Acker CG, Johnson JP, Palevsky PM, Greenberg A. Hyperkalemia in hospitalized patients: causes, adequacy of treatment, and results of an attempt to improve physician compliance with published therapy guidelines. Arch Intern Med. 1998;158(8):917-924. doi:10.1001/archinte.158.8.917
- Quintero JA, Medina CA, Penagos F, Montesdeoca JA, Orozco GA, Saavedra-Castrillón J, et al. Electrocardiographic abnormalities in patients with hyperkalemia: a retrospective study in an emergency department in Colombia. Open Access Emerg Med. 2024;16:133-144. doi:10.2147/OAEM.S455159
- Durfey N, Lehnhof B, Bergeson A, Durfey SNM, Leytin V, McAteer K, et al. Severe hyperkalemia: can the electrocardiogram risk stratify for short-term adverse events? West J Emerg Med. 2017;18(5):963-971. doi:10.5811/westjem.2017.6.33033
- Littmann L, Gibbs MA. Electrocardiographic manifestations of severe hyperkalemia. J Electrocardiol. 2018;51(5):814-817. doi:10.1016/j.jelectrocard.2018.06.018
®